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III Circuito Internacional do Porto
II Grande Prémio de Portugal
21 e 22 de Junho


Eugenio Castellotti e o Ferrari 225S Touring #0166ED. Os grandes triunfadores da segunda edição do Grande Prémio de Portugal.
(Foto: Arq. ACP)


Os Ferrari presentes

Nº15 - GF Oliveira - 166 MM #0056M
Nº18 - Vasco Sameiro - 225S #0198ET
Nº19 - Casimiro de Oliveira - 225S #0180ET
Nº20 - José Arroyo Nogueira Pinto - 340 America #0082A
Nº21 - Fernando Mascarenhas - 225S #0200ED
Nº26 - António Stagnoli - 225S #0176ED
Nº28 - Clemente Biondetti - 166MM #0022M
Nº29 - Eugenio Castellotti - 225S #0166ED
Nº30 - Piero Carini - 166MM #0004M

Luigi Villoresi, embora inscrito, não chegou a comparecer.

Os concorrentes estavam ordenados nas seguintes categorias:

- Até 1000 cc
- De 1100cc a 2000cc
- Mais de 2000cc


Para 1952 a Ferrari apostava, na categoria Sport, nos modelos 225S equipados com o motor de origem "Colombo" evoluído agora para os 2.715cc e que se estrearam na Volta à Sicília desse ano através de Giovanni Bracco, Vittorio Marzotto, Piero Taruffi e Gigi Villoresi. De referir que em 1952 surgiu igualmente a versão 250S (2.953,21cc) que constituiu uma espécie de  protótipo da linhagem de motores 250 que, quer em versões Sport, quer sobretudo nos GT, marcariam de forma indelével a história da Ferrari. O modelo 250S venceu as Mil Milhas de 1952 através de Giovanni Bracco / Alfonso Rolfo (com o #0156ET).
Em Portugal Vasco Sameiro, Casimiro de Oliveira e Fernando Mascarenhas foram os pilotos que desde logo adquiriram exemplares do 225S, ao passo que o 340 America #0082A, anteriormente utilizado por Casimiro de Oliveira, foi adquirido por José Nogueira Pinto. 



Foto feita na alfândega de Lisboa aos 225S de Sameiro e Casimiro e ao 166MM de Guilherme Guimarães. Os primeiros a estrearem solo nacional, o segundo vindo de Itália após uma revisão.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)



O 166MM #0056M continuava a sua carreira desportiva com Guilherme Guimarães, que prosseguia o hábito de se inscrever sob diversos pseudónimos, enquanto que o 166MM #0040M, utilizado em competição no ano de 1950 por Vasco Sameiro e em 1951 por Casimiro de Oliveira, não comparecia neste II Grande Prémio de Portugal, surgindo a 27 de Setembro no IV Circuito de Vila do Conde pelas mãos de José Cabral. 


Resultados dos treinos de qualificação para a grelha de partida:
(Disputados no dia 21 a partir das 18 horas)

1º - Castellotti - 3'.11''.97
2º - Stagnoli - 3'.12''.53
3º - Sameiro - 3'.13''.41
5º - Casimiro - 3'.16''.26
6º - Mascarenhas - 3'.20''.31
7º - Nogueira Pinto - 3'.21''.16
8º - Carini - 3'.22'.50
9º - Biondetti - 3'.28''.56
11º - G.F. Oliveira - 3'.38''.62

Clemente Biondetti tinha a mesma idade de Enzo Ferrari (54 anos) e, tal como o seu amigo de Modena mostrava ter a alma e a combatividade necessárias para continuar a competir e a desafiar pilotos mais jovens, tendo vencido, entre outras provas, as Mil Milhas e a Targa Florio de 1948 e 1949 ao volante de automóveis Ferrari. No ano de 1952, Biondetti correu, antes da disputa do Grande Prémio de Portugal,  as Mil Milhas (4 de Maio) com um 225S, tendo desistido.


António Stagnoli estava inscrito pela Scuderia Guastalla. Alinhou com um 225S equipado com uma carroçaria feita na Vignale mas segundo um projecto do próprio piloto italiano, que segundo ele: "Graças a essa concepção, o carro é mais leve 80 a 90 Kg e tem um melhor arejamento dos pneus e travões." Esta configuração fora estreada no Grande Prémio do Mónaco de 1952 (2 de Junho), corrida que terminou em 3º e onde realizou a volta mais rápida da corrida com um tempo de 1'.56''.4. Recorde-se que o tempo da pole position conseguida por Stirling Moss no Jaguar Type-C fora de 2'.00''.02, o que prova a rapidez do conjunto Stagnoli e Ferrari 225S. Refira-se que, para além da sua actividade como piloto de automóveis, Stagnoli geria em Milão uma representação de acessórios para automóveis.


A partir das quinze horas, os concorrentes começaram a alinhar os automóveis na grelha de partida. Na foto pode ver-se Manuel Palma com o 225S de Fernando Mascarenhas a cumprir esse procedimento.
Já nesta altura se começavam a revelar a imaginação de Palma na colocação de artefactos aerodinâmicos com o objectivo de melhorar a eficiência do automóvel, embora na realidade acabasse por alterar somente a estética...
Fernando Mascarenhas tinha disputado o XII Grande Prémio do Mónaco, que nesse ano de 1952 (2 de Junho) tinha sido reservado a automóveis de Sport, com um Allard J2. Após a disputa da prova, deslocou-se a Itália, juntamente com Manuel Palma, para levantarem o Ferrari 225S e para Palma efectuar um estágio de cerca de oito dias na fábrica da Ferrari em Maranello. O regresso a Portugal (Lisboa) foi feito numa carrinha, com o Ferrari num atrelado.

Utilizando desta vez o enésimo pseudónimo, G.F. Guimarães, ou Guilherme Guimarães, ostenta orgulhoso o seu capacete, numa altura em que este dispositivo de segurança se tornou obrigatório. Se nos treinos a diferença de andamento para os outros dois 166MM presentes foi de cerca 18 segundos (para Carini), na corrida G. Guimarães encurtou essa diferença (na volta mais rápida) para cerca de 8 segundos. 


Uma grelha de partida em que nos onze primeiros lugares estavam nove automóveis da marca Ferrari.

Vasco Sameiro consegue ser o mais lesto na partida. Cada um dos três 225S da frente tem uma carroçaria diferente. O de Vasco Sameiro é Vignale, o de Stagnoli foi feito também na Vignale mas segundo um projecto do próprio piloto italiano, e o de Castellotti um Touring.
Curioso referir que nas provas disputadas em Itália existiam mecânicos de cada carroçador a fazer assistência aos carros em competição, festejando no final a vitória do Ferrari que tinha a carroçaria por si feita.


A Corrida


Às 16 horas o engº Ribeiro Ferreira, vice-presidente da Comissão Desportiva do ACP, deu a partida para  o II Grande Prémio de Portugal,  que foi disputado num total de 50 voltas.
No final da 1ª volta, os pilotos passaram pela seguinte ordem: Stagnoli, Castellotti, Sameiro, Mascarenhas, Hamilton (Jaguar), Casimiro, Nogueira Pinto, Carini, Bonetto (Lancia), Anselmi (Lancia), Biondetti, Ammendola (Lancia), Corte Real (Alba), Adolf (Veritas), Guimarães.


Nesta 1ª volta, Castellotti foi o mais rápido, com o tempo de 3.23.05, enquanto que Vasco Sameiro foi mais lento cerca de 5 segundos.

Na 4ª volta, Stagnolli e Castellotti continuam na frente, seguidos por Sameiro e agora por Casimiro, que entretanto ultrapassou Mascarenhas e Hamilton.

Na 7ª volta, Sameiro e Casimiro surgem com um atraso para os dois primeiros de cerca de vinte segundos e trinta e cinco segundos, respectivamente.

À 9ª volta, Casimiro aproximou-se ligeiramente de Sameiro e do grupo da frente, do qual dista agora cerca de meio minuto.
Mascarenhas é 5º classificado, a já 1 minuto e 18 segundos de Stagnoli. Nogueira Pinto é 7º, seguido por Carini e Biondetti.

Até à 11ª volta, o mais rápido em pista era Stagnoli que fez um tempo de 3'.13''.25, mas nessa mesma volta Casimiro consegue um tempo de 3'.12''.98, cerca de 4 segundos mais rápido que o tempo que havia conseguido nos treinos.

Por altura da 15ª volta, Casimiro aproxima-se de Sameiro e do duo da frente, do qual dista agora cerca de 27 segundos. Mascarenhas continua no 5º lugar, na frente do Jaguar XK 120 C de Hamilton.

Na 17ª volta, Casimiro consegue fazer a volta mais rápida até essa altura, com um tempo de 3'.10''.91, sendo que na volta seguinte conseguiu reduzir para 21 segundos o atraso para Stagnoli e Castellotti. Sameiro continua em 3º, a 16 segundos dos dois primeiros.
Por esta altura, e pressentindo a aproximação dos dois pilotos portugueses, o público anima- -se e incentiva freneticamente os pilotos dos Ferrari amarelos.

Nesta altura, Hamilton recuperou o 5º lugar em prejuízo de Mascarenhas, este já com uma volta de atraso. Seguiam, Carini, Nogueira Pinto, Biondetti e Guimarães.


Nas primeiras voltas da corrida, Stagnoli e Castellotti rodaram nos dois 1ºs lugares. Os dois estavam inscritos pela Scuderia Guastalla. Esta equipa, pertença de Franco Cornachia, fazia alinhar diversos pilotos em várias competições. "Simplesmente os carros são nossos e as reparações são pagas também por cada um de nós. A “Scuderia” presta-nos assistência, trata dos nossos contratos, etc. Mas mais nada." António Stagnoli sintetiza desta forma o vínculo a essa equipa. Curioso o facto destes dois Ferrari 225S terem corrido o Grande Prémio do Mónaco desse ano e terminado em 2º (Castellotti) e 3º (Stagnoli), tendo Castellotti protagonizado uma interessante luta com Vittorio Marzotto, no 225S #0154ED, tendo este último vencido a corrida.


Na 24ª volta, Stagnoli mantém o comando mas Castellotti atrasa-se, estando agora a 10 segundos do comandante da corrida, e vendo agora mais nitidamente pelos espelhos retrovisores do seu 225S o modelo homólogo de Vasco Sameiro, que agora está distanciado por somente 3 segundos. Casimiro encontra-se a 25 segundos de Stagnoli.

Depois de completada a 26ª volta, Sameiro passa a meta junto a Castellotti, coloca-se ao seu lado e ensaia uma ultrapassagem na aproximação à curva do Castelo do Queijo. O público levanta-se nas bancadas, mas Sameiro não conseguiu neste local passar o piloto italiano, tendo no entanto sucesso no seu intento de passar para o segundo lugar da corrida.


Vasco Sameiro aos 46 anos de idade encontrava motivação para continuar a competir. A sua actuação foi particularmente meritória, batendo-se pela vitória na corrida, apesar de ter como adversários pilotos como Eugenio Castellotti e António Stagnoli, que dispunham de automóveis mais leves que a versão Vignale utilizada por Sameiro, particularmente o 225S de Stagnoli que tinha um peso aproximado de 765Kg ao invés dos cerca de 850 Kg dos 225S usados por Sameiro e Casimiro de Oliveira. O 225S Touring de Castellotti era igualmente mais leve, o que fazia com que, sobretudo na grande reta da avenida da Boavista, fosse impossível a Sameiro acompanhar o ritmo dos pilotos italianos.
Pena que a corrida de Vasco Sameiro tenha ficado afectada por alguns problemas mecânicos. Já nos treinos, Sameiro tinha tido alguns problemas com o distribuidor, o que fazia com que o motor do seu 225S não passasse das 6400 rpm. Imediatamente antes da corrida, um mecânico italiano que acompanhava a participação de Stagnoli e Castellotti, procedeu a uma verificação dos distribuidores, mas como o automóvel tinha que ser levado para a grelha de partida, foi já neste local e cinco minutos antes da partida que o capot do Ferrari foi fechado e a afinação concluída. O que é certo é que o motor rendeu, até ao abandono, o esperado, permitindo a Sameiro bater-se com os seus adversários mais directos.


Na 29ª volta, Castellotti consegue reaver o 2º lugar, mantendo-se Sameiro no seu encalço. Casimiro de Oliveira mantem-se no 4º posto, agora a 23 segundos de Stagnoli.

Na 30ª volta, assiste-se a uma mudança no comando da corrida, quando Castellotti ultrapassa Stagnoli e por sua vez, na travagem para a curva do Castelo do Queijo, Vasco Sameiro ultrapassa o piloto do Ferrari nº26. Mais um momento de grande animação entre o público presente, que ainda foi maior quando no decorrer da volta seguinte Sameiro assume o comando da corrida, aí se mantendo durante as voltas 32ª, 33ª e 34ª. Nesta 34ª volta, Stagnoli pára para efectuar um reabastecimento, operação em que perde 39 segundos.


Na temporada portuguesa de corridas neste ano de 1952, assistiu-se a um duelo entre os dois 225S amarelos de Vasco Sameiro e de Casimiro de Oliveira. Nesta corrida, Vasco Sameiro surgiu mais rápido do que Casimiro e, sobretudo, mais consistente. No final, a diferença entre as voltas mais rápidas efectuadas pelos dois pilotos foi de 3'.08''.62 para Sameiro e 3'.09''.04 para Casimiro. De qualquer forma, diferença menor do que a registada nos treinos e que foi de cerca de 3 segundos, favorável ao piloto de Braga.
Pode consultar aqui o registo de provas efectuado neste ano de 1952 pelos dois pilotos, para além dos restantes 225S que competiram em Portugal.


Na 35ª volta, Castellotti passa novamente para o comando da prova, com Vasco Sameiro a cerca de 7 segundos. Casimiro é o 3º e Stagnoli o 4º, a 1 minuto e 8 segundos.

Nesta altura, Fernando Mascarenhas tem que fazer uma travagem a fundo para evitar um outro piloto que fez um pião e ficou atravessado na sua frente. Essa manobra fez com que batesse de traseira nos sacos de protecção, o que motivou a quebra do veio de transmissão do seu 225S e levou ao abandono do piloto de Lisboa.


Biondetti fez uma excelente prova, lutando com Carini pela primazia na categoria de 1100cc a 2000cc. Apesar de veterano, Biondetti conseguiu o 2º lugar na categoria e 6º da geral, atrás de Carini. O piloto de Génova contava nesta altura com 31 anos. A categoria destinada aos automóveis entre 1100cc e 2000cc contava entre os participantes com a equipa oficial da Lancia, que correu com os Aurelia B20 GT Coupé (2 l), para Amendolla, Bonetto e Enrico Anselmi, o Veritas RS (2l) de Kurt Adolf e o Monopole/Ford (2l) de Pierre Duval. Seria o Veritas o melhor não Ferrari nesta categoria, no 3º posto mas já a uma volta do 166MM de Carini.


Na 36ª volta Vasco Sameiro foi obrigado a parar nas boxes devido a uma avaria no seu Ferrari, o que o fez perder quase uma volta. Ainda volta à pista, mas retorna às boxes onde abandona a corrida.

Castellotti mantem-se na frente, com Casimiro de Oliveira a cerca de 25 segundos. Na 41ª volta desiste Hamilton com o Jaguar XK120 C e o Lancia de Anselmi, que se despista na curva do Castelo do Queijo.


Dentro dos Ferrari participantes nesta corrida, estes dois modelos eram a excepção aos motores de 2,7 litros: o 340 America (4,1 litros) e o 166MM (2 litros). Na foto, com o nº20 o 340 America #0082A, pilotado por José Nogueira Pinto (que foi pertença, no ano anterior, de Casimiro de Oliveira, que com ele venceu o I Grande Prémio de Portugal nesta mesma pista da Boavista) e com o nº28, o 166MM  #0022M de Clemente Biondetti.
José Nogueira Pinto conseguiu ser particularmente mais rápido do que Casimiro de Oliveira fora com o mesmo Ferrari em 1951 nesta pista, algo que poderá ser em parte justificado pela alteração e melhoria geral do traçado e pela redução de quilometragem por volta, que passou dos 7.775 para os 7.407 metros. A melhor volta de Casimiro em 1951 fora de 3'.33.59'' enquanto que Nogueira Pinto conseguiu em 1952, 3.23.58''.


A partir da 46ª volta, Casimiro reduz a distância que o separa de Castellotti, até cerca de 13 segundos, mas nada impede a merecida vitória do piloto italiano e do seu 225S Touring, equipado com pneus Pirelli.

No final da corrida, Eugenio Castellotti ergue a taça de vencedor. Na altura referiu ao jornal "O Volante":
"Como organização e espectáculo, o circuito foi admirável. Que pena o carro de Vasco Sameiro ter avariado! Seria ele o vencedor."
Eugenio Castellotti começava nesta altura a apurar o estilo e a formar o perfil de grande piloto que foi.



Classificação Final


1º - Eugenio Castellotti - Ferrari 225S #0166ED
50 Voltas - 2h 41' 00,20'' - Média 138,016Km/h
V.M.R - 3'.07,84'' - Média 141,957Km/h



2º - Casimiro de Oliveira - Ferrari 225S #0180E
50 Voltas - 2h 41' 22,94'' - Média 137,692Km/h
V.M.R - 3'.09,04'' - Média 141,056Km/h

3º - António Stagnoli - Ferrari 225S #176ED
50 Voltas - 2h 43' 27,92'' - Média 135,937Km/h
V.M.R - 3'.09,72'' - Média 140,550Km/h

4º - José A. Nogueira Pinto - Ferrari 340 America #0082A
47 Voltas - 2h 44' 17,14'' - Média 127,143Km/h
V.M.R - 3'.23,58'' - Média 130,981Km/h

5º - Piero Carini - Ferrari 166MM #0004M
46 Voltas - 2h 41' 35,34'' - Média 126,514Km/h
V.M.R - 3'.22,24'' - Média 131,849Km/h

6º - Clemente Biondetti - Ferrari 166MM #0022M
46 Voltas - 2h 44' 31,94'' - Média 124,251Km/h
V.M.R - 3'.26,46'' - Média 129,154Km/h

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8º - G.F. Oliveira - Ferrari 166MM #0056M 
50 Voltas - 2h 44' 47,64'' - Média 121,357Km/h
V.M.R - 3'.30,26'' - Média 126,820Km/h

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Não terminou: Vasco Sameiro - Ferrari 225S #0198ET
37 Voltas 
V.M.R - 3'.08,62'' - Média 141,370Km/h


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Alguns depoimentos dados pelos pilotos ao jornal "O Volante"*:


Piero Carini

"- Paciência. Foi uma linda prova, cheia de dificuldades, de boa luta e de boa velocidade.
Quanto ao Circuito, limitou-se a confirmar o que já dissera o ano passado e há dois anos:
- Belo percurso, para mais agora bastante melhorado. Gosto muito de correr aqui - até pelo público que é muito correcto."


António Stagnoli

" A. Stagnoli afirmou que na última parte da prova o carro já não correspondeu totalmente. Mas estava contente por todos os motivos.
- Vasco e Casimiro são dois corredores com «classe». Bons adversários e muito leais, como de resto todos os outros concorrentes. 
Quanto ao percurso, achei-o esplêndido e próprio para carros de maior velocidade ainda."


Eugenio Castellotti

"Após o cordealìssimo abraço que lhe deu Vasco Sameiro, o vencedor do II Grande Prémio de Portugal, Castellotti, bastante comovido com as manifestações do público, disse:
- Estou muito contente por todos os motivos; até porque a vitória não foi fácil, principalmente enquanto Sameiro esteve em pista. Tive muita pena que desistisse, pois é um grande corredor.
E acerca do circuito:
- É maravilhoso. Podem realizar-se aqui grandes corridas. É uma pista muito rápida, digna de organizações mais importantes."


Casimiro de Oliveira

"Também Casimiro de Oliveira, o vencedor do I Grande Prémio de Portugal, confiou aos jornalistas as suas primeiras impressões a respeito da prova e da sua actuação:
- Quase não pude treinar - disse ele - O carro levou tempo a afinar, mas hoje portou-se muito bem, e eu fiz o que pude. Castelotti é um bom condutor de grande categoria e ganhou bem."


Vasco Sameiro

"Encontramo-nos, acidentalmente, junto do «box» de Vasco Sameiro quando o valoroso volante português parou o carro para não voltar a partir. Assistimos a esse momento dramático que impressionou toda a assistência, a qual, ignorando ainda os motivos da sua paragem, o incitava com gritos de: - Vasco!... Vasco!... - repetidos em uníssono .
Alguém insistiu com Vasco Sameiro para que prosseguisse, ao que ele se recusou terminantemente.
Aproximamo-nos, decepcionados e contristados, como todos e perguntamos a razão da sua paragem:
- Uma avaria no distribuidor. - respondeu Vasco Sameiro, correcto e delicado como sempre - Desde o começo da prova o carro nunca correspondia inteiramente, mas foi piorando volta a volta, principalmente quando comecei a puxar, depois do sinal do meu irmão.
E acrescenta, após uma pausa para beber um golo de cerveja:
- Com o carro a falhar como está, e depois dum esforço destes, não vale a pena continuar. Tenho pena, sinceramente, de não ter podido corresponder à confiança que em mim tinham depositado. Estou muito reconhecido ao público pelos seus aplausos e incitamentos."

* Nº811, 28 de Junho de 1952

Fotos: Arquivo do ACP / cedidas por António Menéres, salvo indicação em contrário.


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XI Circuito Internacional de Vila Real
5 e 6 de Julho




1952 foi um ano em que os Ferrari marcaram presença no Circuito de Vila Real em grande número, nove automóveis no total, numa altura em que a marca de Maranello procurava afirmar-se sobretudo como fabricante de carros de competição.
Foram três os modelos que participaram nesta edição do circuito transmontano: o 225S, nas suas variantes Vignale Spider (4 automóveis) e um Spider Touring, o 166MM Touring Barchetta (3 automóveis) e o 340 America Vignale Coupé.


Os  Ferrari presentes:

Nº8 - Conde de Monte Real - 166 MM Touring Barchetta #0004M
Nº10 - Clemente Biondetti - 166 MM Touring Barchetta #0022M
Nº11 - Guilherme Guimarães - 166 MM Touring Barchetta #0056M
Nº16 - Eugenio Castelotti - 225S Touring Barchetta #0166ED
Nº18 - Antonio Stagnoli - 225S Vignale Spider #0176ED
Nº19 - José Nogueira Pinto - 340 America Vignale Coupé #0082A
Nº20 - Fernando Mascarenhas - 225S Vignale Spider #0200ED
Nº21 - Casimiro de Oliveira - 225S Vignale Spider #0180ET
Nº22 - Vasco Sameiro - 225S Vignale Spider #0198ET


Os concorrentes estavam ordenados nas seguintes categorias:

- Até 1000 cc
- De 1100cc a 2000cc
- Mais de 2000cc


Os já conhecidos e veteranos 166MM continuaram a ser fabricados devido à sua crescente utilização por pilotos privados na classe até 2.000 c.c., onde revelavam grande competitividade (o último chassis a ser construído seria o 0346M em 1953) constituindo também a possibilidade de correr a custos controlados, pelo que a sua carreira estendeu-se até 1953 com o 166MM série II e mesmo a 1954, onde nas Mil Milhas desse ano correu pela última vez um 166MM/53, o de Paolo Pineschi (#0266M).
Nesta edição do Circuito Internacional de Vila Real estavam inscritos os mesmos Ferrari que haviam participado no II Grande Prémio de Portugal disputado uns dias antes no Porto.
Em Vila Real seriam conduzidos por Clemente Biondetti (com o #0022M), que havia ganho com este modelo as Mil Milhas em 24 de Abril de 1949 ( aqui com o #0008M), Guilherme Guimarães (#0056M) e pelo Conde de Monte Real (#0004M), com o 166MM foi cedido por Piero Carini, que havia competido com este mesmo carro no ano anterior neste circuito, e no II Grande Prémio de Portugal disputado a 22 de Junho deste ano de 1952.
O 340 América de José Nogueira Pinto (#0082A) era o automóvel que havia corrido no ano anterior nas mãos de Casimiro de Oliveira, e era o carro de maior cilindrada e maior potência inscrito em Vila Real (4,1 litros e 220 cv), embora também fosse o mais pesado.
O Ferrari que se estreava em corridas em Vila Real era o 225S, que descende directamente do 166 MM e do 212 spider e coupé (versões Export e Inter).
O 225S existia nas versões Spider Vignale, Berlinetta Vignale, Spider Fontana e Spider Touring. Em Vila Real, neste ano de 52, correram quatro Vignale Spider: o de Casimiro de Oliveira (#0180ET), Vasco Sameiro (#0198ET), D. Fernando Mascarenhas (#0200ED) e António Stagnoli (#0176ED), sendo este uma versão “especial” caracterizado da seguinte forma por John Starkey: “Very skimpy body with cut-away fenders”.
O 225S de Eugenio Castellotti (#0166ED) era um 225S na versão Touring Barchetta, sendo esta versão aquela que os carros adoptavam à saída de fábrica.
Nesta época foi crescente a participação de pilotos italianos no circuito de Vila Real, que deixaram saudade a todos aqueles que, para além de poderem admirar os seus belos e potentes automóveis, ficaram também bastante sensibilizados pela sua disponibilidade e carácter.

Os treinos decorreram na sexta-feira e no sábado tendo todos os inscritos participado. Com a excepção de Stagnoli, Vasco Sameiro e José Nogueira Pinto, todos os restantes pilotos que utilizaram automóveis Ferrari fizeram melhores tempos no sábado.


Resultados dos treinos de qualificação para a grelha de partida:

1º - Casimiro de Oliveira - 3'.50.41''
2º - António Stagnoli  - 3'.50.69''
3º - Vasco Sameiro - 3'.52.76''
4º - Eugenio Castelotti - 3'.58.55''
5º - José Nogeuira Pinto - 4'.03.84''
6º - Fernando Mascarenhas - 4'.05.62''
7º - Conde de Monte Real - 4'.05.98''
8º - Clemente Biondetti - 4'.06.67''
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10º - Guilherme Guimarães - 4'.15.74''

Ainda antes da corrida, o Conde de Monte Real desistiu de alinhar, depois de notar uma menor performance do 166 nos treinos. Ao que referiu na altura, Piero Carini havia-lhe prometido um motor de 4,1 litros (340) tendo no entanto levado para Vila Real um de 2 litros.


Nesta fotografia, da autoria da Foto Macário de Vila Real, pertencente à colecção de Manuel Menéres, e que me foi enviada por Ângelo Pinto da Fonseca, a quem agradeço, pode ver-se Vasco Sameiro a preparar-se para tomar lugar no seu Ferrari 225S #0198ET. Com um ponto de vista menos habitual, esta sugestiva fotografia foi feita na zona da recta da meta, situada na época na Avenida Almeida Lucena, junto ao edifício do antigo Quartel do Regimento de Infantaria Nº13. 


Fernando Mascarenhas no 225S #0200ED partiu para a corrida no 6º lugar da grelha de partida. Aqui na foto acompanhado pelo inseparável Manuel Palma.
À parte o desempenho na corrida, Fernando de Mascarenhas protagonizou um episódio que revelou os seus dotes físicos, quando no Café Pompeia, em pleno centro de Vila Real, quando estava numa mesa juntamente com outros pilotos, começou a ouvir de uma mesa ao lado algumas provocações de alguém que, para além de subestimar os dotes de condução do Marquês de Fronteira (referindo inclusivamente que não tinha mãos para o Ferrari), subestimou também, acrescentamos nós, os dotes físicos de D. Fernando. Assim, quando ultrapassou os seus limites de paciência, este pura e simplesmente agarrou no provocador e atirou-o pela montra do café para a Avenida Carvalho Araújo. Como grande benemérito que era, Fernando Mascarenhas pagou todas os estragos... em duplicado.
(Foto: Colecção Manuel Taboada)



A Corrida


A corrida tinha um total de quarenta voltas e uma distância de 288 Km. Após a partida, Sameiro, que em entrevista ao jornal Volante, referiu que era fundamental em Vila Real largar à frente pois era difícil ultrapassar na pista transmontana, conseguiu o comando da corrida, no entanto, Stagnoli era já o 1º classificado no final da 1ª volta. 
Na 1ª passagem pela linha da meta, os concorrentes estavam assim ordenados, Stagnoli, Sameiro, Casimiro, Castelotti, Mascarenhas, Nogueira Pinto, Bonetto (Lancia), Biondetti, Corte Real (DM), Guilherme Guimarães. Charles Huc num Simca 8 Spéciale fechava o pelotão.

Na 3ª volta deu-se o acidente de Castellotti, em Mateus, em que o piloto italiano bateu numa árvore do lado do condutor quando, ao querer reduzir para a 2ª velocidade, não o conseguiu, o que motivou a sua saída de pista. Nesta volta, Stagnoli, Sameiro e Casimiro de Oliveira tinham um avanço maior sobre os seus mais directos adversários. Mascarenhas mantinha o quarto lugar.
Na 4ª volta, Casimiro consegue fazer a melhor volta da corrida até então (3'.50.89''), tempo que batia desde logo o máximo de Bracco do ano anterior, conseguindo desta forma aproximar-se do duo da frente.
Na 5ª volta Guilherme Guimarães consegue ultrapassar o DM (1.100cc) de Corte Real e Fernando Mascarenhas está atrasado 1'.15'' de Casimiro do Oliveira, o último dos três da frente.
Na 6ª volta, Vasco Sameiro bate o recorde do Circuito com um tempo de 3'.34'' à média de 113 Km/h.
Na 7ª volta, Sameiro surge mais perto de Stagnoli. Na luta pela primazia da classe de 2 litros, Biondetti ultrapassa Bonetto, na zona de Abambres, e é nesta mesma zona do circuito que, à 9ª volta, se dá o outro grande acidente; desta feita é Stagnoli que não consegue evitar uma saída, após bloquear os travões do deu 225S, batendo nos sacos de areia e sendo projectado a uma altura de três metros, por cima de um muro que ladeava a pista. Pouco tempo antes tinha batido o recorde da pista, ao fazer um tempo de 3.45.93 à média de 115 Km/h. 
Na 10ª volta, Guilherme Guimarães para na boxe para mudar os pneus do seu 166MM. Sameiro passa em 1º seguido por Casimiro a 13 segundos. Fernando Mascarenhas surge em 3º com um atraso de 2'.31.83'' para o primeiro, e José Nogueira Pinto em 4º, a cerca de 45 segundos de Mascarenhas.
Vasco Sameiro abandonou à 13ª volta, devido à blocagem das rodas, que, embora provocando uma ligeira saída de pista, não teve consequências para o piloto. Segundo as próprias palavras do piloto: "Quando perseguia Stagnoli, já tinha sentido, por duas vezes, à 5ª e à 7ª volta, o descontrole dos freios. Isso obrigava-me a manter certa prudência. Depois do desastre do Stagnoli, abrandei um pouco e não esperava vir a ter novamente esse percalço. Mas a pouca sorte não quis assim. Felizmente, porém, que o que se deu foi na curva mais fácil e na qual se vai mais devagar [curva de S. Pedro, ver foto]. Os freios bloquearam-se e uma roda traseira bateu no passeio. É certo que podia mudar de roda – mas nessa ocasião já o carro não me dava a confiança necessária. E foi então que desisti." (Jornal "O Volante" da época)

Embora com a desistência de Vasco Sameiro a prova tenha perdido muito do seu interesse, Casimiro de Oliveira manteve um ritmo vivo, conseguindo tempos por volta inferiores aos obtidos até ai.
Entra a 15ª e a 16ª volta, Casimiro ultrapassou Fernando Mascarenhas, conseguindo dobrar o piloto de Lisboa.
A meio da corrida, Casimiro tem um avanço de 5'.18.44'' para Mascarenhas, e Nogueira Pinto surge a somente 2 segundos do piloto do 225S #0200ED. Biondetti é 4º classificado, e Guilherme Guimarães é 6º.
Até esta altura as melhores voltas da corrida foram:

Casimiro de Oliveira, na 14ª, 3'.47.68''
Fernando Mascarenhas, na 20ª, 3'.58.61''
José Nogueira Pinto, na 20ª, 3'.59.14''
A melhor volta continuava a pertencer nesta altura a Antonio Stagnoli com 3'.45.93''.


Nesta fase da corrida, o duelo entre Fernando Mascarenhas e José Nogueira Pinto pela conquista do 2º lugar é o maior motivo de interesse, rodando os pilotos muito próximos um do outro, fazendo com que Mascarenhas tenha que forçar o andamento o que fez com que o atraso para Casimiro de Oliveira se estabilizasse nesta altura. No entanto, à 30ª volta, José Nogueira Pinto foi obrigado a desistir devido à quebra de um cardan.
Com a desistência de Nogueira Pinto, Clemente Biondetti passa a ser o 3º classificado e 1º de entre aqueles que utilizam motores de 2 litros. O piloto italiano fez, à 25ª volta, a sua volta mais rápida até então, com um tempo de 4'.1.35''.
Nas últimas dez voltas da corrida, Casimiro de Oliveira tem um avanço de 5'.56.71'' sobre Fernando Mascarenhas, conseguindo à 32ª volta bater o recorde do Circuito com um tempo de 3'.42.34'' à média de 116 Km/h.
Na classe de 1.100 c.c. a 2.000 c.c., Biondetti conseguiu levar a melhor sobre Bonetto, tendo Guilherme Guimarães ficado no lugar mais baixo do pódio.

Vasco Sameiro conseguiu uma boa largada, no entanto Stagnoli assumiu o comando ainda antes de se concluir a 1ª volta, passando a meta já com cerca de duzentos metros de avanço para o piloto de Braga. A luta durante grande parte da corrida foi entre Stagnoli e Sameiro, até ao acidente do italiano, a seguir ao qual, foi Casimiro de Oliveira que perseguiu Vasco Sameiro.
1952 seria o último ano em que a meta foi colocada junto ao Jardim da Carreira.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)


Clemente Biondetti largou do 8º lugar da grelha de partida, aqui na foto quase a par do 340 America de José Nogueira Pinto, que havia conseguido o 5º tempo.
Clemente Biondetti era um dos muitos pilotos italianos que durante esta época fizeram carreira e criaram nome nas Mil Milhas. Aliava uma grande sensibilidade mecânica a um talento particular para as provas de estrada. O segredo para a regularidade que normalmente demonstrava foi desvendado quando em 1954 nas Mil Milhas, onde correu com um Ferrari 250 MM cedido por Luigi Piotti, quando Alberto Ascari, que corria nesta prova com um Lancia 3,3l tentando associar às vitórias na Fórmula Um um triunfo nas Mil Milhas, lhe pediu, antes da partida, um conselho para abordar da melhor forma esta prova de estrada; Biondo respondeu-lhe: "Tu ganhas as Mil Milhas andando devagar..." Mais tarde, Ascari, num artigo por ele escrito, reconheceu que este conselho lhe deu a vitória nesse ano. Biondetti morreria três meses depois de Ascari, a 24 de Fevereiro de 1955.

O 225S de Casimiro de Oliveira na zona da Timpeira. 
Entre os pilotos Portugueses, Vasco Sameiro referia, na altura (numa entrevista ao Jornal Volante) que o Conde da Covilhã era o amigo nº1 do automobilismo de competição em Portugal. (A equipa C.S.C., a que pertenciam os 225S de Sameiro e Casimiro, e cujas iniciais significavam: Covilhã, Sameiro e Casimiro). Estes 225S tinham a particularidade de serem pintados de amarelo e de usarem pneus Mabor.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)

Fotos feitas logo após o acidente sofrido por Eugenio Castellotti, na terceira volta da corrida, e que nos foram cedidas por Mário Fernandes Pinto, o mais curioso é que Fernandes Pinto presenciou este acidente, tendo-nos dito a propósito: 
"O piloto ao olhar para trás ter-se-á desconcentrado, saiu de pista e embateu num pinheiro. O Ferrari ficou imobilizado ao alto. O relógio do piloto e um sapato luva ficaram caídos ao lado do automóvel. Um assistente foi de imediato desligar o motor 12 cilindros do Ferrari, enquanto eram prestados os primeiros socorros a Castelotti."
Castellotti foi, na década de cinquenta, um dos mais destacados pilotos italianos. Antes de se tornar piloto oficial da Ferrari, foi um dos seus melhores clientes, desenvolvendo uma grande amizade com o próprio Enzo Ferrari. Namorava na altura com a popular actriz italiana Delia Scala, que o pressionava a abandonar as corridas. Morreria a 14 de Março de 1957 durante uns testes no Circuito de Modena.
(Fotos: Colecção de Mário Fernandes Pinto)

Outra foto em que se pode ver o estado em que ficou o 225S Spider Touring de Castellotti após o seu acidente logo na terceira volta.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)

Foto inédita do Ferrari 225S #0176ED de António Stagnoli, após o acidente sofrido na zona de Abambres.
António Stagnoli tinha na altura 33 anos e possuía em Milão uma representação de acessórios de automóveis, correndo, segundo o próprio, para se divertir. O carro que conduzia era seu, no entanto a Scuderia della Guastalla prestava-lhe assistência técnica. Aliás, esta equipa, para além de Stagnoli, contava nas suas fileiras, nesta prova de Vila Real, com Castellotti. O 225S de Stagnoli seria recuperado durante o mês de Agosto, para ser utilizado novamente em competição a 28 de Setembro desse mesmo ano, no Grande Prémio de Bari, por... Castellotti. Um ano mais tarde, este carro seria reconvertido para uma carroçaria Vignale Spider convencional embora, actualmente, e após um restauro efectuado recentemente, este automóvel tenha readquirido a sua forma original.
(Foto: António Carlos Moreira)

Nesta foto é difícil notarem-se as particularidades do desenho da carroçaria do 225S “especial” de Stagnoli. Foi na zona de Abambres que se deu o acidente. Stagnoli referiu na altura, meio a brincar, que o que lhe deu azar foi não ter trazido consigo a sua irmã Gabriella, que o acompanhava para toda a parte, mas que não se deslocou a Vila Real. Em Setembro, do mesmo ano, este carro voltaria a competir pelas mãos de Castellotti, no Grande Prémio de Bari.
Na curva de S. Pedro, Vasco Sameiro não conseguiu evitar uma saída de pista, motivada por alguns problemas nos travões do seu 225S. Foi na 13ª volta da corrida e obrigou o piloto a desistir.
(Foto: Jornal "O Comércio do Porto"/Coleção Manuel Taboada)

Em 1952, José Nogueira Pinto, para além das provas em circuito, utilizou o 340 America em algumas provas do Campeonato Nacional de Rampa desse ano. (Rampa da Penha e de Santa Luzia)  Aqui em Vila Real, conseguiu lutar com Fernando Mascarenhas pelo 2º lugar da corrida, no entanto, à 30ª volta foi obrigado a abandonar devido à quebra de um cardan, por falta de lubrificação. A partir de metade da corrida, esta luta foi o maior motivo de interesse, mas como referia o jornal "O Volante": "A prova vai decorrendo normalmente, sem novidade de maior, e há muita gente que está de ouvidos à escuta para saber o que se passa no Pavilhão dos Desportos da cidade do Porto". Recorde-se que do dia 28 de Junho a 7 de Julho de 1952, decorreu no Porto o Campeonato do Mundo e da Europa de Hóquei em Patins, que Portugal ganhou...

Neste instantâneo, feito no momento em que Casimiro de Oliveira corta a linha de meta, pode notar-se o posto de condução elevado, característica do 225 S 
Casimiro conseguiu, na parte final da corrida, ganhar uma média de 15 segundos por volta a Fernando Mascarenhas, para terminar com um avanço para o piloto de Lisboa de quase oito minutos...
Casimiro alcançou igualmente a volta mais rápida da corrida, batendo a marca de Stagnoli, na 32ª passagem pela meta, e pulverizando todos os recordes anteriores, quer o da média geral, 111,42Km/h contra os 107,260 de Giovanni Bracco feitos em 1951, quer o da volta mais rápida, de 116,500 Km/h contra os 111,600 Km/h, igualmente de Bracco em 1951.
"No Porto eu tinha o carro mal afinado, a dar pouco rendimento" (...) "Hoje está bom". Declarações de Casimiro ao jornal "O Volante" no final da competição. 
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)

Casimiro de Oliveira festeja a sua vitória. Logo de seguida, este e outros pilotos, fizeram uma visita ao Hospital da Misericórdia para se inteirarem do estado de saúde de Stagnoli e Castellotti.
(Foto: Jornal "O Volante/Coleção Manuel Taboada)

Castelotti, Bonetto, Stagnoli, Biondetti... muitas saudades deixaram em Vila Real os pilotos vindos de Itália. Impuseram-se pelas suas qualidades de pilotagem e humanas. Foto feita junto à reta da meta.
(Foto: Arquivo ACP)

Logo após terminar a sua prova, Casimiro perguntou Onde estão eles? Quero ir vê-los já!. E assim foi. Este, juntamente com outros pilotos e elementos da organização, deslocaram-se ao hospital de Vila Real para se inteirarem do estado de saúde dos seus colegas. Castellotti seguiu para Itália de avião três dias depois da prova, Stagnoli permaneceu até ao dia 21 desse mês (Julho) na Casa de Saúde da Boavista, com uma fractura da base do crânio, fracturas de costelas e de uma omoplata. Ainda no Hospital da Misericórdia de Vila Real, sucedeu um episódio curioso. Quando em determinado dia da sua convalescença, e para se fazer entender junto das enfermeiras, o piloto começou a fazer gestos e sons imitando uma ave, ao fim de algum tempo aquelas perceberam os desejos do piloto italiano: queria simplesmente uma canja de galinha... O próprio piloto aproveitou uma entrevista dada mais tarde ao Jornal O Volante para agradecer publicamente aos pilotos portugueses e estrangeiros, às autoridades locais e elementos da organização, ao A.C.P. e ao pessoal médico do Hospital de Vila Real e da Casa de Saúde da Boavista no Porto, o apoio e carinho dispensados na sua convalescença.
Uma das críticas feitas ao traçado de Vila Real da altura era o de ser demasiado estreito. O próprio Stagnoli referiu, numa entrevista ao jornal O Volante, que o circuito necessitava de grandes beneficiações, tendo em conta as altas velocidades praticadas. E assim, até 1958, o circuito foi alvo de intervenções tanto de redimensionamento da pista, de re-asfaltamento, de alteração do próprio traçado, bem como da construção de uma nova ponte na zona da Timpeira. Desta forma, só nesse ano se retomaram as corridas em Vila Real, e não foi possível ver e ouvir na pista transmontana alguns Ferrari marcantes, dos quais destacámos o 250MM, um automóvel que na sua versão Spider Vignale foi intensamente utilizado pelos principais pilotos portugueses da altura, mas em 1958 a sigla 250 marcaria presença em Vila Real, com um tal de TR...

Na segunda-feira seguinte à corrida, os jornais colocavam Vila Real como principal notícia na 1ª página. Neste caso o Comércio do Porto.
(Coleção Manuel Taboada)

Foto da reprodução à escala 1/43 de um dos 225S da C.S.C., no caso o de Casimiro de Oliveira que correu o Circuito da Boavista de 1952.



Classificação Final


1º - Casimiro de Oliveira - Ferrari 225S #0180ET
       40 Voltas - 2h 35' 4,65'' - Média 111,42Km/h
       V.M.R - 3'.42,34'' - Média 116,58Km/h

       (1º do Grupo superior a 2000cc)

2º - Fernando Mascarenhas - Ferrari 225S #0200ED
       39 Voltas - 2h 39' 19,62'' - Média 105,74Km/h
       
       V.M.R - 3'.55,03'' - Média 110,28Km/h
       (2º do Grupo superior a 2000cc)

3º - Clemente Biondetti - Ferrari 166MM #0022M
       38 Voltas - 2h 37' 44,10'' - Média 104,07Km/h
      
       V.M.R - 3'.59,34'' - Média 108,30Km/h
       (1º do Grupo de 1100cc a 2000cc)

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5º - Guilherme Guimarães - Ferrari 166MM #0056M
       3Voltas - 2h 39' 13,60'' - Média 100,38Km/h
       
       V.M.R - 4'.11,09'' - Média 103,23Km/h
       (3º do Grupo de 1100cc a 2000cc)


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Rampa da Penha
27 de Julho


O grupo de pilotos vencedores dos diversos grupos aquando da distribuição de prémios, entre os quais estão, Fernando Mascarenhas, J. Arroyo Noguiera Pinto e Guilherme Guimarães, estes todos ao volante der automóveis Ferrari. Ao centro na foto o conde de Monte Real, o vencedor dessa Rampa e líder do Campeonato (Ford-Ardum)
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)


Depois da 1ª prova do Campeonato Nacional de Rampa que se tinha disputado no Gradil, os concorrentes desta competição organizada pelo Automóvel Clube de Portugal deslocaram-se até Guimarães para a disputa da Rampa da Penha.


Os Ferrari presentes:

Nº 27 - Guilherme Oliveira (Guimarães) - 166MM #0056M (II Grupo, entre 1100cc e 2000cc)
Nº 32 - Fernando Mascarenhas - 225S #0200ED (I Grupo, superior a 2000cc)
Nº34 - José Nogueira Pinto - 340 America #0082A (I Grupo)
Nº 44 - Carlos Ferreira -  (I Grupo)

Temos obtidos:

Guilherme Oliveira  -  4'.13.42'' (1º classificado do II Grupo, 10 pontos)
José Nogueira Pinto - 4'.09.31'' (2º classificado do I Grupo, 8 pontos)
Fernando Mascarenhas - 4'.12.09'' (3º classificado do I Grupo, 6 pontos)
Carlos Ferreira - 4'.15.96'' (4º classificado do I Grupo, 4 pontos)

Classificação do Campeonato após esta 2ª prova:

1º - Conde de Monte Real - 20 pontos
2º - José Nogueira Pinto - 16 pontos
3º - Fernando Mascarenhas - 12 pontos

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Rampa de Santa Luzia
15 de Agosto


Integrada nas festas da Srª da Agonia, esta foi a 3ª prova a contar para o Campeonato Nacional de Rampa de 1952.
Tinha um percurso de 3250 metros. 


Os Ferrari presentes:

Nº 27 - Guilherme Oliveira (Guimarães) - 166MM #0056M (II Grupo, entre 1100cc e 2000cc)
Nº 32 - Fernando Mascarenhas - 225S #0200ED (I Grupo, superior a 2000cc)
Nº34 - José Nogueira Pinto - 340 America #0082A (I Grupo)

Embora inscrito não chegou a comparecer Vasco Sameiro e o seu 225S #0198ET.

O recorde da rampa pertencia a José Cabral, que na edição de 1950 fez o tempo de 2'.21.04'' à média de 82,955 Km/h.

Tempos obtidos:

Fernando Mascarenhas - 2'.23.41'' à média de 81,584 Km/h - 2º do I Grupo
José Nogueira Pinto - 2'.24.10'' à média de 81,194 Km/h - 3º do I Grupo

Guilherme Guimarães não chegou a concluir qualquer subida já que logo após cem metros da partida abandonou com problemas na embraiagem do seu 166MM.
O vencedor foi o Ford Ardum do Conde de Monte Real com o tempo de 2'.21.28'' á média de 82,814 Km/h.

Classificação do Campeonato após esta 3ª prova:

1º - Conde de Monte Real - 30 pontos
2º - José Nogueira Pinto - 22 pontos
3º - Fernando Mascarenhas - 20 pontos


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III Circuito de Vila do Conde
30 e 31 de Agosto


O duelo da temporada de 1952 foi entre os dois pilotos dos 225S amarelos. Vasco Sameiro  (com o nº20) conseguiu ser mais rápido nos treinos largando do 1º lugar da grelha de partida.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)


Circuito organizado pela Comissão de Turismo local com o patrocínio da Câmara Municipal e do ACP.
15 concorrentes inscritos, de entre os quais, 5 Ferrari.

Os Ferrari presentes: 

Nº15 - Guilherme F. Oliveira - 166MM #0056M
Nº16 - Fernando Mascarenhas - 225S #0200ED
Nº17 - José Nogueira Pinto - 340 America #0082A
Nº19 - Casimiro de Oliveira - 225S #0180ET
Nº 20 - Vasco Sameiro - 225S #0198ET

O Conde de Monte Real esteva inscrito com um Ferrari mas não chegou a participar.


Todos os Ferrari inscritos pertenciam  ao 2º Grupo destinado a automóveis com cilindrada superior a 1500cc, do qual de resto era a única marca com modelos inscritos neste agrupamento.
Nesta edição do Circuito de Vila do Conde foram disputadas duas corridas, uma para cada grupo, para além do já referido 2º grupo, também para o 1º que era destinado a automóveis com cilindrada até 1500cc.

A corrida destinada ao 2º Grupo foi a última disputada, tendo-se iniciado pelas 17.15h, com a partida a ser dada por Jorge Novais.

Resultado dos treinos de qualificação para a grelha de partida:

1º - Vasco Sameiro
2º - Casimiro de Oliveira
3º - José Nogueira Pinto
4º - Fernando Mascarenhas
5º - G. F. Oliveira


Na partida para a corrida, Vasco Sameiro foi o mais rápido, tomando desde logo a dianteira logo seguido por Casimiro de Oliveira, Fernando Mascarenhas, José Nogueira Pinto e G. Oliveira. Na 4ª volta Vasco Sameiro é obrigado a abandonar a corrida com o diferencial do seu 225S partido, continuava desta forma a má sorte do piloto de Braga nesta temporada de 1952. As 50 voltas da corrida foram a partir daqui uma mera formalidade para Casimiro de Oliveira, tendo o piloto do Porto feito  na 5ª passagem pela meta um tempo por volta de 1'.27.26'', e à 10ª volta registaram-se os melhores tempos dos concorrentes em pista, a saber: Casimiro 1'.27.23'', Mascarenhas 1'.31.10'', Nogueira Pinto 1'.31.27'' e Guilherme Oliveira 1'.37.52''.

Na 18ª volta desistiu José Nogueira Pinto por avaria mecânica, ao mesmo tempo que Casimiro, apesar de estar confortavelmente no comando da corrida, faz, à 19ª volta o tempo de 1'.26.76''. Na 25ª passagem pela meta, Casimiro de Oliveira tinha já ganho três voltas ao 166MM de Guilherme Oliveira e uma a Fernando Mascarenhas. Até ao final da corrida, Casimiro ainda conseguiu bater o tempo da volta mais rápida com 1'.25.20'' à média de 123 Km/h.


Depois da desistência no II Grande Prémio de Portugal, motivado por um acidente, e do 2º lugar no Circuito de Vila Real, Fernando Mascarenhas repete a classificação da prova transmontana.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)

Vasco Sameiro conversa com Júlio Marinho, que juntamente com Jorge Novais, Anselmo Mancelos, José Júlio Marinho e Walter Cudell, fazia parte do júri desta prova.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)

Casimiro de Oliveira recebe das mãos de Bento de Sousa Amorim, presidente da câmara de Vila do Conde.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)


Classificação Final:


1º - Casimiro de Oliveira - Ferrari 225S #0180ET
       50 Voltas - 1h 13'. 29'' - Média 118,584Km/h
       V.M.R - 1'.25,20'' - Média 122,746Km/h

2º - Fernando Mascarenhas - Ferrari 225S #0200ED
       48 Voltas - 1h 13' 29,5''

3º - Guilherme F. Oliveira - Ferrari 166MM #0056M
       45 Voltas - 1h 14' 55,51'' - Média 104,07Km/h


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Rampa da Pena
21 de Setembro


A última prova do Campeonato Nacional de Rampa de 1952 foi disputado num percurso de 2000 metros desde o Largo do Victor até ao cruzamento da Estrada dos Capuchos.
No I Grupo, destinado a automóveis acima de 2000cc estava inscrito Fernando Mascarenhas no 225S #0200ED, piloto que também se inscreveu neste mesmo grupo com o seu Allard J2, e o Conde de Monte Real com o Ford Ardum.

O Conde de Monte Real, com três victórias em três provas disputadas, era já o novo campeão nacional de rampa (I Grupo), sendo que ainda estava em disputa o segundo lugar entre José Nogueira Pinto e Fernando Mascarenhas.

O Conde de Monte Real conseguiu um tempo de 2'.11.15'' no seu Ford Ardum (equipado com um motor de 4162cc e culassas Ardum) batendo o recorde da Rampa. Fernando Mascarenhas obteve um tempo de 2'.15.33'' com o Ferrari 225S e 2'.15.21'' com o Allard, sendo este último o tempo válido para a classificação. José Nogueira Pinto não compareceu no seu Ferrari 340 America.
Em 1953 o Automóvel Clube de Portugal não realizaria este Campeonato de Rampa, em virtude do pouco número de inscritos. 


Classificação do I Grupo:

1º - Conde de Monte Real - Ford Ardum - 2'.11.15'' 
      (Média 54,898Km/h)
2º - Fernando Mascarenhas - Allard J2 - 2'.15.21''
3º - Fernando Mascarenhas - Ferrari 225S - 2'.15.33''

Classificação Final do Campeonato

1º - Conde de Monte Real - 40 pontos
2º - Fernando Mascarenhas - 28 pontos
3º - José Nogueira Pinto - 22 pontos

(Classificaram-se um total de 43 pilotos)


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IV Circuito de Vila do Conde
26 e 27 de Setembro



Num enquadramento, quase todos os Ferrari existentes na época em Portugal. Nesta altura quem ambicionava vencer provas no nosso país tinha que ter um automóvel de Maranello.



Pela primeira e única vez na história do Circuito de Vila do Conde foi utilizado o conhecido como "Circuito grande" com um perímetro total de 4.557 metros.
Tal como no III Circuito disputado em finais de Agosto, também foram realizadas duas corridas, uma para automóveis até 1500cc, 1º Grupo (20 voltas) e outra para os de cilindrada superior a 1500cc, 2º Grupo (35 voltas/159,4Km).

Os Ferrari presentes: 
(todos no 2º Grupo):

Nº1 - Casimiro de Oliveira - 225S #0180ET
Nº2 - Fernando Mascarenhas - 225S #0200ED
Nº3 - Vasco Sameiro - 225S #0198ET
Nº5 - José Nogueira Pinto - 340 America #0082A
Nº7 - Guilherme F. Oliveira - 166MM #0056M
Nº8 - José Cabral - 166MM #0040M


O final do programa de corridas desta quarta edição do Circuito de Vila do Conde estava reservado para a prova dos automóveis do 2º Grupo.

Resultado dos treinos de qualificação para a grelha de partida:


1º - Casimiro de Oliveira
2º - Vasco Sameiro
3º - José Nogueira Pinto
4º - José Cabral
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6º - Fernando Mascarenhas
-----------------------------------------
8º - G. F. Oliveira


Casimiro de Oliveira conseguiu desta vez o melhor tempo nos treinos, tendo Vasco Sameiro a seu lado na grelha de partida. O piloto de Braga teve um época frustrante, plena de azares que o levaram á desistência nas provas anteriormente efectuadas, dai o seu cuidado na abordagem a esta prova, estabelecendo desde início um ritmo mais cuidado que lhe permitisse terminar a corrida.
Casimiro sai mais rápido na partida e logo na 2ª passagem pela meta consegue a melhor volta da corrida com 1'.50.98'' (marca que ficaria para sempre como o recorde deste traçado), no entanto á 9ª volta desiste na Curva das Caxinas. O motor do 225S partiu.
Vasco Sameiro herdou então o comando da corrida, mantendo a partir dai, tal como de resto tinha feito desde o início, um ritmo contido, mas suficiente para deixar os seus rivais à distância. 
Mais uma vez, e mantendo a tradição mantida ao longo da temporada de 1952, Fernando Mascarenhas e José Nogueira Pinto mantiveram uma animada luta pela 2ª posição, que seria favorável ao piloto de Lisboa, deixando o piloto do Ferrari com o motor de 4,1 litros a cerca de 18 segundos.
No regresso às competições do 166MM #0040M, José Cabral conseguiu terminar a corrida na quarta posição, recorde-se que este mesmo Ferrari tinha ganho o II Circuito de Vila do Conde (1951) pelas mãos de Casimiro de Oliveira.
Guilherme de Oliveira não terminou a corrida.



José Nogueira Pinto consegue na partida para a corrida impôr o motor "Lampredi" ao "Colombo" de Casimiro de Oliveira. A luta do piloto do 340 America com Fernando Mascarenhas pela segunda posição seria o motivo de maior atenção nesta corrida.
(Foto: Postal da época/Colecção Manuel Taboada)


Vasco Sameiro conseguiu finalmente uma vitória ao volante do 225 S

Casimiro de Oliveira foi o mais rápido nos treinos.

José Nogueira Pinto consegui levar o 340 America até ao terceiro lugar na corrida.

José Cabral trouxe o 166 MM #0040M de volta às corridas.

Guilherme Oliveira e o 166 MM azul.

Desta vez os problemas surgiram com Casimiro de Oliveira, que desistiu com o motor partido na Curva das Caxinas.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)

"Não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe". O sorriso de volta à cara de Vasco Sameiro, numa temporada de 1952 em que a alegria da vitória só surgiu nesta última prova em Vila do Conde.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)

Vasco Sameiro e Casimiro de Oliveira eram nesta altura pilotos veteranos, mas que continuavam a animar as pistas portuguesas com as suas lutas intensas mas leais, ao volante de automóveis que o público se habituou a venerar.
(Foto: Jornal "O Volante"/Colecção Manuel Taboada)


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A entrevista concedida por António Stagnoli ao jornal "O Volante" e publicada a 5 de Agosto de 1952

António Stagnoli deslocou-se ao nosso país durante o ano de 1952, para participar no III Circuito Internacional do Porto / II Grande Prémio de Portugal, cuja corrida terminou no 3º lugar, e o XI Circuito Internacional de Vila Real, na qual sofreu um acidente (foto) que deixou o Ferrari 225S #0176ED e sobretudo o piloto, algo maltratados.
(Foto: Coleção António Carlos Moreira)

Corre há muitos anos?

- Há seis

E desde quando tem carta para conduzir?

- Desde os 18 anos. Antes, porém, já eu guiava automóvel. E uma vez em Milão, a polícia agarrou-me, fui preso – e depois apanhei uma sova do meu pai, que me foi buscar no comissariado…

É profissional do automobilismo? Vive das corridas que faz?

- Não. Tenho em Milão umas representações de acessórios de automóveis. Essa é que é a minha vida. Ser corredor é um divertimento…

Mas pertence à “Scuderia Della Guastalla” não é?

- De facto. Simplesmente os carros são nossos e as reparações são pagas também por cada um de nós. A “Scuderia” presta-nos assistência, trata dos nossos contratos, etc. Mas mais nada.

E os prémios?

- Quem os ganhar é que os guarda. À “Scuderia” pagamos uns tanto por cento para despesas.

Tem muitos elementos a Scuderia?

- Entre outros, tem Cornachia, que é o presidente. Bracco, Romano, Castelotti, eu e mais alguns.

Ainda detêm o título italiano para carros com menos de dois litros…

- E verdade, ganhei-o o ano passado, vencendo as seis provas do campeonato. Este ano, infelizmente, não posso concorrer. Este desastre tornou-me inactivo tempo demais.

Outras vitórias?

- Em 1951, além daquelas seis, ganhei mais duas provas. E este ano já venco o Circuito de Monte Carlo. No Porto fui 3º e em Vila Real ganhei…o leite!


Como se deu o desastre de Vila Real


Ao falar deste desastre em Vila Real, Stagnoli mostra-nos o seu desgosto:

- Foi este o meu primeiro acidente de corredor de automóveis. Nunca até agora tinha tido a menor coisa. Nem sequer uma esmurradela da carroçaria….

Depois de uma pausa:

- Parece que o que em deu azar foi não ter trazido a Portugal minha irmã Gabriella, que sempre me acompanha para toda a parte. Desta vez não a trouxe e tive o desastre!….

Gabriella, a jovem irmã de Stagnoli, encontrava-se já então ao lado dele, pois viera de Itália mal o desastre foi conhecido. Chegara, pelos vistos com atraso – idêntico àquele com que o irmão António entrou há dias em casa….

Pode dizer-nos como se deu o seu desastre? Recorda-se?

- Não me recordo. Calculo, porém, que entrei naquela curva com velocidade excessiva. Devo ter travado cinco metros mais tarde. O carro fugiu-me, a traseira bateu num muro -  e depois saltou para um campo. Mas repito, eu não me recordo!

Ia na frente da corrida. Contava ganhar a prova?
Stagnoli sorri – e não responde logo.

- Eu só sei que estava normal, tranquilo. Sabia que Sameiro andava atrás de mim e que tinha ganho alguns segundos. Por isso, aumentei a velocidade. Quanto a ganhar, isso só se sabe quando se corta o risco da meta….


A diferença entre Vasco e Casimiro


Leva portanto más recordações de Portugal?

- Não senhor. Levo até muito boas recordações. De Portugal e dos portugueses especialmente. Só encontrei aqui gente amiga – e um magnífico ambiente de simpatia e carinho. Foram muitas as pessoas que vieram aqui visitar-me e muitas também as que telefonaram, para saber do meu estado. O sr. Governador Civil telefonou ao cônsul de Itália – e do ACP nunca me faltou com a sua assistência moral. O mesmo digo dos corredores portugueses, verdadeiros amigos e camaradas: Vasco Sameiro, Casimiro de Oliveira, Nogueira Pinto e todos os outros. Estou muito grato a toda a gente: autoridades, ACP, corredores, imprensa, etc. Isto é o que eu desejava dizer publicamente antes de partir – e estou satisfeito por ser em “O Volante” que vai sair esse meu agradecimento.

E sobre os nossos corredores que opinião formou?

- Vasco é um lutador sempre pronto a combater desde a primeira à última volta, se o carro dá… Casimiro, pelo contrário, só resolve aparecer nas últimas voltas, quando já não se pensa nele. E então é que ele combate pela vitória. São os melhores portugueses e são muito bons.

Acha que em Itália podiam marcar boa posição?

- Não tenho dúvidas nenhumas sobre isso. Com o seu valo e com o seu espírito de lealdade, Vasco e Casimiro podiam fazer em Itália muito boa figura.


Sobre o Ferrari e os circuitos portugueses em que correu

Quanto aos nossos dois circuitos?

- O do Porto é um dos mais interessantes que conheço, pois tem troços para boas velocidades e tem a Estrada da Circunvalação, com as curvas necessárias para “animar” a prova. Gostei muito dele, até porque prefiro pessoalmente os circuitos de médias altas. É o caso deste.

Qual a velocidade máxima que atingiu no Porto?

- Talvez 208 ou 210 no cimo da Boavista.

Parece-lhe que a nossa pista serviria para corridas de Fórmula 2?

- Já não é a primeira vez que o afirmo. Fazia-se aqui um magnífico  Grande Prémio de Fórmula 2.

Stagnoli diz-nos depois que a Fórmula 2 tem, quanto a si, mais vantagens do que a quase desaparecida Fórmula 1:

- Os carros são mais baratos, podem adquirir-se com mais facilidade – e, portanto, podem aparecer, no futuro, maior número de corredores de valor.

Por falar em carros:

A carroçaria do seu Ferrari era muito diferente do que é costume ver-se. Trata-se de um carro especial?

- Não senhor. É um carro igual ao do Vasco e Casimiro. A sua cilindrada é de 2.710cc -  e estreei-o em Monte Carlo. A carroçaria é diferente, porque foi feita na Vignale sob uma ideia minha. Graças a essa concepção, o carro é mais leve 80 a 90 Kg e tem um melhor arejamento dos pneus e travões.

Sofreu muito com o desastre o seu carro?

- Nem por isso. Há-de estar pronto a correr primeiro que eu…

Qual a sua opinião sobre o Circuito de Vila Real?

- Não é mau, necessita é de algumas beneficiações, atendendo ás velocidades altas que os carros agora atingem. Depois desses melhoramentos, pode ficar no bom caminho. A organização é boa.


E assim terminou a entrevista com António Stagnoli – o “volante” que veio a Portugal ter o primeiro acidente da sua carreira… Dois dias depois, acompanhado pela irmã, partia para Milão, a caminho de casa, onde devia ter chegado vinte dias mais cedo…

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Em 1952, foram importados um total de quatro automóveis Ferrari para Portugal:

- 225 S Spider Vignale #0180ET
- 225 S Spider Vignale #0198ET
- 225 S Spider Vignale #0200ED
- 195 Inter Ghia Coupé #0183EL